Desde que iniciou a segunda metade deste ano, fui surpreendido por dois pedidos de socorro distintos que me tiraram da cama entre as duas e as três da madrugada. Situações que ainda não senti vontade de relatar aqui, mas que não deixarei de manifestar de maneiras diferentes, não verbais, tais como os pedidos aos quais me refiro. Não que seja minha escolha. E não que sejam esses os motivos pelos quais me mantenho acordado à noite. Sim, perdi o sono, a fome, a libido. Mas todos voltam, e as noites em claro são uma constante desde os anos da puberdade.
Quando vem se aproximando o verão o céu começa a ficar lilás já antes das cinco. O Sol chega às seis, atravessando a janela da sala de estar, a sala de jantar, adentrando o meu quarto pela porta entreaberta, para então atingir meus olhos. Estes, sem escolha, se fecham e permanecem assim pelas horas do dia que menos me agradam. De pé entre as duas e as três da tarde observo o milagre do céu mais azul, o posterior dourado que vem corar os rostos e o melancólico lilás das seis.
Lembro que era quando tocava a Ave Maria no rádio que minha irmã, na época ainda de fraldas, chorava em silêncio. Minha mãe observava, sem interferir, intrigada. Ponderava quais fantasmas de vidas passadas transbordavam os olhos de uma criança que nascera calada e, até então, só vivera dias felizes. Devo admitir que também me vinha um nó na garganta, mas que eu preferia engolir. Até hoje sinto uma tristeza às seis, que atribuo à inevitabilidade do fim do dia. A verdade, porém, é que nem preciso fechar os olhos para ouvir a ópera.